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O letramento racial é um processo de reeducação racial que reune um conjunto de práticas com o intuito de desconstruir formas de pensar e agir naturalizadas e normalizadas socialmente, em relação a pessoas negras e pessoas brancas.

Em relação às pessoas negras, a desconstrução do imaginário racista e em relação a pessoas brancas, a desconstrução do imaginário de superioridade.

Vamos aprofundar mais essa conversa!

Existe uma pesquisa da década de 90, e que continua atualizada até os dias de hoje, da Folha de São Paulo, de que 90% das pessoas que diziam conhecer pessoas racistas e diziam que o racismo existia, mas quando perguntavam se elas eram racistas, elas diziam que não.

Essa resposta mostra o quanto a questão racial no Brasil é permeada de desafios, principalmente ligado à falta de conhecimento acerca de como funciona o racismo enquanto sistema de opressão.

A maioria da população brasileira desconhece a história do próprio país.
E não pensem que isso é obra do acaso. Como diz Paulo Freire: ‘Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de maneira crítica’.

Então, essa falta de conhecimento é uma estratégia para que o sistema continue sendo reproduzido, sem questionamentos.

Não é à toa, por exemplo, que pouco falamos sobre racismo nas escolas e sobre o protagonismo de pessoas negras e indígenas nas mais diversas revoluções existentes na história do Brasil.

Diante desse cenário, o letramento racial traz 5 fundamentos que nos dá uma base de como iniciar o processo de desconstrução do agir e pensar racista em cada um de nós, e isso consequentemente terá um impacto tanto na nossa vida pessoal, como social e profissional.

1. Reconhecimento da branquitude

O primeiro fundamento é o reconhecimento da branquitude. Branquitude é o nome dado à construção da identidade racial branca dentro de sociedades estruturadas pela raça e pelo racismo.

É a ideia de que a raça branca é superior às outras, e que diante disso passa a não ser nem considerada uma raça, mas seres humanos.

Vamos explicar de outra forma. Pessoas brancas não pensam muito sobre o que é ser branco, pois o debate racial é sempre focado nas pessoas negras. Por isso, surgem comentários: “não vejo cor, só vejo pessoas”, ou “todos nós somos iguais”, justamente porque não há essa reflexão.

E isso é um privilégio, pois como diz Joice Berth sobre se descobrir negra: “não me descobrir negra, fui acusada de sê-la”.

Pessoas negras “descobrem” desde cedo que são negras e que isso é um problema. Então, o primeiro passo nesse processo de desconstrução é entender o papel da pessoa branca nesse diálogo.

2. O racismo não está no passado

O segundo fundamento é de que o racismo não está no passado. O racismo não acabou com o “fim” do sistema escravocrata.

Tente imaginar o racismo como marcas de carro, por exemplo. Os modelos mudam, a cor, o motor, mas continua sendo carro, certo? O racismo é assim. Ele muda a forma de existir, mas continua existindo e sendo racismo.

O racismo no Brasil já existiu como escravidão, já existiu em forma de racismo científico com teorias que “provavam” que pessoas negras eram inferiores, e consequentemente as pessoas brancas eram superiores, já existiu com a ideia de que negros e brancos conviviam harmonicamente, então surge o que chamamos de mito da democracia racial.

Mito esse que muitas pessoas acreditam até hoje. Isso são alguns exemplos das diversas formas do racismo acontecer.

3. O racismo é aprendido

O terceiro fundamento nos diz que o racismo é aprendido. Aqui a frase de Nelson Mandela é autoexplicativa “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Não nascemos racistas, aprendemos. É isso. E como aprendemos? Vamos imaginar uma cena: duas crianças, uma branca e uma negra, estudam em uma escola particular. A criança branca entra na escola e o porteiro é negro, as pessoas dos serviços gerais são negras, a professora é branca, a coordenadora é branca. Isso implicitamente está ensinando a ela que quem se parece com ela ocupa um espaço de autoridade sobre ela.

Agora imagina a criança negra na mesma cena. Pessoas brancas, que são diferentes dela, ocupam um lugar de autoridade sobre ela. E ela internaliza isso, entende? Por isso, representatividade é tão importante, porque vai quebrando essa lógica. Esse é um exemplo de como a sociedade vai nos ensinando implicitamente os lugares sociais.

 4. Vocabulário racial

O quarto fundamento fala sobre vocabulário racial. E aqui podemos falar fortemente sobre as expressões racistas.

Vou citar duas para refletirmos: “inveja branca” e “lista negra”. Inveja branca significa uma “inveja do bem”, que não faz mal. Lista negra é a lista das pessoas que eu não gosto, ou que fizeram algo de errado. Percebe como a palavra branca e a palavra negro tem significados diferentes entre o positivo e o negativo?

5. Interpretação de códigos racistas

E o quinto fundamento fala sobre a interpretação de códigos racistas. Após todos os outros fundamentos fica muito mais fácil você perceber o racismo acontecendo, para além das ofensas.

E com certeza você vai começar a ouvir: “pronto, agora pra você tudo é racismo”. Porque você agora tirou a venda dos olhos e verá coisas que antes não via. Conhecimento liberta. E isso é um excelente sinal.

Esses cinco fundamentos te darão a base para você desconstruir o seu agir e pensar racista.

Vamos embarcar nessa?